Em Eclesiastes, um livro muito interessante da Bíblia que mostra a visão pessimista do que é a vida de um autor (não achei certezas sobre quem é, alguns dizem que é Salomão) que não tem Deus no coração. São realmente conclusões curiosas, que pode ser resumida no segundo versículo: “Que grande inutilidade! Nada faz sentido!”.

Não são raras as vezes que ao alimentarmos o cérebro, temos divagações como a de Eclesiastes. Por que na vida, nada faz sentido? É tudo uma questão de ir ao trabalho todo dia, ir vivendo um dia após o outro, ver o Sol nascer e se pôr repetidas vezes? O que é que tem de novo durante todos os anos que vivemos? Qual o sentido disso tudo?

Para quem já tem a predisposição de aceitar Deus como o sentido da vida, fica mais fácil, e eu invejo quem consegue essa solução. Mas Deus me deu pouca fé, e pra mim, o sentido da vida não está acima do Sol (metaforicamente relacionando com Eclesiastes). Seria, então, a sabedoria sinônimo de sofrimento?

Certa vez, Dom Hélder Câmera falou: “Quando alimentei os pobres chamaram-me santo, mas quando perguntei por que há gente pobre chamaram-me comunista”. Creio que o que o grande bispo católico quis falar com isso pode ser o significado do conhecimento. Para muita gente, analisar num contexto microcósmico é satisfatório. Ver um pobre, deitado na rua passando fome é um problema que podemos resolver fazendo uma sopa e saciando a fome em uma noite. Isso basta para aquietar a alma de muitos.

O conhecimento entra quando nos perguntamos: “por que existem pessoas passando fome?”. E as respostas para essa pergunta não traz paz e não são reconfortantes. Descobrir como realmente o mundo funciona no contexto estrutural nos tira noites de sono.

Quando em Matrix Reagan filosofa sobre a ignorância, chega a conclusão que ela é uma benção. Sabe quando nos dizem que, se a sabedoria é uma opção ruim, a ignorância é uma ainda pior? Não sei se creio nisso. A ignorância nos entorpece, nos faz fechar os olhos para o mundo real e nos deixa mais felizes.

Não há como se sentir feliz quando compreendemos as várias formas de opressão que existem no mundo.

Mas há como se sentir feliz quando alimentamos o cérebro com a parte positiva da humanidade.

Somos uma espécie esplêndida. A metáfora do filme Gravidade é fantástica por isso, mostra a Terra como um lar intocável, flutuando na imensidão negra do espaço. Ali naquele local já fizemos barbaridades, mas também conquistamos feitos que nunca devemos nos esquecer.

Surgimos na África há cerca de 200 mil anos, demos os primeiros passos rumo à civilização. Estamos gradualmente deixando de ser uma espécie violenta. Conquistamos a medicina e estamos vivendo o que há 100 anos atrás seria impensável. Demos os primeiros passos na Lua e hoje estamos enviando robôs, feitos por nós, para além do sistema solar.

No Brasil, politicamente, os últimos 20 anos foram de transformações sociais profundas e estamos caminhando para ser um dos poucos países em que a desigualdade está diminuindo. Isso não é resultado de só um governo, é o resultado de pessoas que lutaram e lutam incansavelmente em busca de um mundo melhor.

São grandes feitos das quais os únicos responsáveis somos nós mesmos. Não há motivo para se orgulhar disso?

Já cansei de ver pessoas inteligentíssimas ao meu redor cederem a ignorância em nome da paz de espírito. É normal. Eu vivo esse dilema quase que sempre, mas a minha solução não é descer a escada e voltar para a ilusão, e sim procurar no meio de tanto caos, motivos para ter a esperança que o horizonte de nossa espécie é bem melhor. Isso me traz paz pessoal.

“Nisso não há professor, não há aluno, não há lider, não há guru, não há mestre, não há salvador. Você mesmo é o professor, o aluno, você é o mestre, você é o guru, você é o lider, você é tudo”

– Jiddu Krishnamurti

“Para mim, é muito melhor compreender o universo como ele realmente é do que persistir no engano, por mais satisfatório e tranquilizador que possa parecer.”

– Carl Sagan

Por isso, faço um apelo pessoal: não sigam o caminho mais fácil. Ele não é o que te trará mais felicidade, nem mais paz, mas continuar nele, e olhar para o futuro pode nos confortar um pouco, mesmo com tanta brutalidade pulando na frente de nossos olhos.

A construção de uma sociedade melhor não passa pelo senso-comum. Lutar contra machismo, racismo, homofobia, o ódio, a miséria e a pobreza, a desigualdade social e tantos outros problemas não é, nem nunca será simples. As pessoas não vão aceitar mudar por que isso é benéfico para quem historicamente é o opressor, e nisso eu me incluo, pois há uma luta diária para que eu perceba que muito do que tenho não é de direito, e sim privilégio. Como concluiu Eclesiastes:

De novo olhei e vi toda a opressão que ocorre debaixo do sol:
Vi as lágrimas dos oprimidos,
mas não há quem os console;
o poder está do lado
dos seus opressores,
e não há quem os console.

— Eclesiastes 4,11