Cosmos voltou à TV em 2014. Neil deGrasse Tyson apresentou a volta de uma das séries mais aclamadas e de maior sucesso da história da divulgação científica. Isso me deixou, e deixou várias pessoas, totalmente atônitas, e não é pra pouco.

Se você não assistiu, veja o trailer, que é simplesmente fantástico! Ouvimos a voz de Sagan, no começo: “O Cosmos é tudo o que é, ou sempre foi, ou sempre será. Nossa contemplação do Cosmos nos comove. Sabemos que estamos diante do maior dos mistérios”, da sua maneira sóbria, calma e apaixonante. Então vem deGrasse: é hora de irmos de novo! E aquele arrepio sobe.

Assim como a série original, essa usou a mais ousada tecnologia de efeitos especiais. Ann Dryuan (esposa e autora da frase no subtítulo) continuou no roteiro, e isso foi uma garantia da qualidade que marcou a série original. Mas ela é completamente diferente. Neil deGrasse Tyson fala para a nova geração ansiosa, que dormiria com as calmas reflexões de Sagan. Todos sabemos que Sagan não apenas divulgava a ciência, mas sim o humanismo, a tolerância e a comunhão com a natureza.

A minha geração (anos 90 em diante) não foi fisgada por Carl. Lembro que o meu interesse pela astronomia surgiu de um dos maiores divulgadores dessa ciência: o céu noturno estrelado. Mesmo vindo de um região com um céu muito nebulado (amazônia), as luzes foscas que atravessam a atmosfera foram o suficiente para me apaixonar. Até hoje, apesar de sempre parecer o mesmo, sempre que olho pro céu, sinto-me numa meditação profunda.

O Universo, do History Channel, foi uma das primeiras séries sobre o tema que assisti, e foi ela que levantou meu interesse na astronomia, mas como um hobbie. Foi apenas quando assisti Cosmos, que vi que aquilo podia ser muito mais do que uma paixão de fim de semana.

Em tudo que tem o dedo de Sagan, suas palavras são doces e ásperas ao mesmo tempo. Ela aborda questões polêmicas de maneira não ofensiva. Seu compromisso era aliar a razão com a felicidade. Acreditava que o mundo poderia ser mudado e poderíamos rumar para um futuro onde a ciência teria o papel positivo que teve no século XX, valorizando a vida humana através da medicina, nos revelando um universo macroscópico e microscópico fascinante, e sem o papel negativo, como a construção de armas nucleares e conflitos ideológicos que aprisionaram o planeta, como na Guerra Fria.

Demorei pra perceber que a mensagem de Carl não era apenas científica. Era filosófica, espiritual, e acima de tudo, política. Pra mim, essa é a diferença crucial entre o velho e o novo Cosmos. Enquanto uma reflete mais sobre as consequências da nossa informação, outra apenas fica mais ousada ao falar de aquecimento global.

A série original mostra a história de nossa espécie no planeta, desde o início em que éramos caçadores e coletores até uma civilização que precisa sair da infância e amadurecer. E era esse o enfoque. Uma mensagem quase espiritual para os rumos da humanidade.

Tão importante quanto o ceticismo e a razão, a “espiritualidade” e o amor são aliadas de uma vida feliz e magnífica. Sagan foi um grande homem, que, sem dúvida nenhuma, viverá para sempre nos céus de nossas mentes. Que muitas pessoas conheçam não só Carl Sagan e a série Cosmos, e sim toda sua mensagem.