Já passamos por terríveis momentos em nossa história. Tanto mundial, quanto no Brasil. No mundo, regimes ditatoriais surgiram sempre que se surgia uma brecha. Por aqui tivemos militares na busca de um país livre do comunismo, sem corrupção e ordeiro. Hitler assombra os alemães até hoje, e é o mote de um dos filmes mais espetaculares sobre como se forma um regime fascista: A Onda (Die Wille) de 2008.

No momento em que temos pequenos filhotes fascistas ganhando os corações da classe média brasileira e jovens querendo atenção, alguns pretendendo o cargo de presidência da república, nada mais urgente do que conhecer a história de como um regime fascista surge. Engana-se se você pensa que estamos salvos de algo assim.

Há revelações do enredo e da história do filme.

Assim que terminei de assistir, parei pra pensar: por que é que sempre repetimos a história? Mesmo estando na cara os indícios daquilo que nos leva a regimes ditatoriais fascistas, sempre o repetimos. Seria por ignorância? Creio que é metade da culpa. Um povo que não conhece a própria história está condenada a repeti-la. Mas há também um pouco de oportunismo daqueles que conhecem muito bem o passado, e gostam de ditaduras e fascismos.

O filme trata exatamente disso. Vemos, de certa maneira, uma classe de alunos bem informada sobre seu passado, tanto que muitos rejeitam quando se começa a falar, de novo, sobre Hitler e o fascismo, acreditando que “aqui não vai mais acontecer”. O professor Wenger é muito bem caracterizado como o oportunista da história. Mesmo começando com um experimento, a situação sai do controle, e ali vemos surgir o fascismo, totalmente apoiado por aqueles que faziam parte do grupo.

Logo no começo do filme há diálogos interessantes que nos permitem uma certa reflexão. O Senhor Wenger (como ele exigiu ser chamado) pede algumas prerrogativas das quais aquelas pessoas que conhecem bem a história e querem voltar a tempos sombrios usam para despertar um apoio as suas ideias radicais: desemprego, a inflação, a indiferença da população pela política, o nacionalismo extremado e um dos que mais me chamou a atenção (inclusive do professor), o descontentamento.

Não é que tais características nos levam, necessariamente, a um golpe fascista. É que, diante delas, algumas pessoas aproveitam o momento, com as promessas de acabar com a ineficiência, a corrupção e outras características que comumente são utilizadas por ditadores, como podemos ver nos Atos Institucionais que acabaram com a democracia no Brasil.

Vocês notam como o Senhor Wenger organizou as carteiras na sala de aula? Não é curioso ver que, quando ele incorporou o líder militar, a organização da sala tornou-se muito parecida com as escolas brasileiras? As fileiras e a ordem exigida dos alunos, a utilização de uniformes, etc… Talvez isso nos faça pensar que as consequências do período antidemocrático que vivenciamos aqui no país se arrastam, sorrateiramente, até hoje.

Com a massa de alunos entrando no “experimento” do professor, surge o grupo A Onda. Um senso de comunidade aflora nos participantes, e eles elegem um líder pelo desejo da maioria, escolhem um uniforme, bolam um símbolo e até uma saudação para se reconhecerem. Todos eles, com a prerrogativa que “não há problema”, e acreditam estar trilhando um bom caminho.

Quando as atitudes do grupo começam a deixar de ser brincadeira, e geram reais problemas, como a violência generalizada e o ódio a todos aqueles que não fazem parte do grupo, surgem as pessoas que tentam alertar o professor que tudo aquilo está indo longe demais. Mona, uma das personagens que se opôs desde o começo, defende que a comunidade não pode tirar o individualismo de cada um. Ela tenta bolar com Karo um jornal para tentar alertar para onde tudo aquilo ia. Karo alerta Wenger que ainda não consegue fazer uma autoanálise.

Quando o professor percebe que já não existia mais sentido nas consequências da Onda, era tarde. Ele não tinha mais o controle. Os alunos acreditavam naquilo com tanto vigor, que perderam todo o senso de autocrítica. Tim, o garoto que desde o começo tinha se empolgado e entrado de verdade na experiência, é quem precisa dar o choque de realidade. Um choque que só veio com a morte. Será que sempre vamos precisar de um grande empurrão para conseguirmos analisar os processos políticos de maneira mais racional? Não podemos parar antes disso acontecer?

Esse é um daqueles filmes essenciais para ficarmos alertas aos efeitos de manada. Nem toda “revolução” é benéfica. Nem tudo aquilo que a maioria deseja é o melhor caminho. É por isso que criamos a democracia, e ela, por mais que possa ter seus defeitos, é a nossa maior conquista política. Em um dos diálogos, Marco conversa sobre “o que devemos nos rebelar hoje em dia”, e chega a conclusão que precisamos de um objetivo comum. E se o nosso objetivo em comum estiver exatamente favorecendo os ditadores? A rebeldia aliada a ignorância é o maior perigo para a democracia.

Não se deve diminuir os riscos de golpe democráticos e fascistas, porque eles são reais. O filme, que é baseado em fatos reais, e a própria história nos mostra que temos a infeliz capacidade de cair nas mesmas armadilhas repetidas vezes. Por isso, o conhecimento e a análise crítica são as maiores armas para aqueles que não querem viver uma história que faz ciclos.